Pérola: esfera mística

Não se pode afirmar com exatidão o significado da palavra pérola. Pode vir de um tipo de molusco – do latim: perna, como eram chamadas as ostras do Mar Negro pelo historiador romano Plínio (o Velho); ou de sua forma esférica – do latim: sphaerula. No entanto, no que diz respeito à simbologia, o tênue fulgor de seu brilho acentua a natureza lunar e feminina, já sua forma esférica induz à ideia de perfeição, o homem esférico de Platão.

Calcula-se que o homem conheça a pérola há 12.000 anos. Como adorno estima-se que são utilizadas há 6.000 anos. É fácil imaginar povos habitando a orla marítima, alimentando-se de ostras e descobrindo no interior de várias delas uma esfera de brilho nacarado, em diferentes tamanhos, formas, cores, prontas para uso, sem a necessidade de serem lapidadas, polidas. Seu comércio na China já existia há 2.500 a.C., antes de tornarem-se tradição no Japão.

As peças de joalheria mais antigas encontradas datam do século IV a.C., Império Persa.

No Império Romano do século I a.C. eram a imagem da opulência, caras, embora abundantes. As mulheres de famílias abastadas forravam suas poltronas com pérolas e as costuravam em suas roupas.

O louco imperador Calígula condecorou seu cavalo com um belo colar de pérolas ao nomeá-lo cônsul. Nero agraciava seus atores favoritos com máscaras cravejadas de pérolas.

Recentemente podemos constatar que sua valorização e apreciação não perderam em nada visto que por volta de 1920 o famoso joalheiro Cartier adquiriu uma casa, um verdadeiro palacete, na 5a. Avenida em Nova York, avaliada em mais de 1 milhão de dólares, trocando-a por um colar de 2 voltas de pérolas naturais.

The Hope Pearl
The Hope Pearl

A maior pérola encontrada pesa 450 quilates (1.800 grãos), está no Museu de South Kensington em Londres.

Não é possível garantir a vida de uma pérola por um tempo determinado, estima-se que possa alcançar de 100 a 150 anos. Exemplares de várias centenas de anos mantém ainda boa aparência.

As pérolas perfeitas são muito raras e, por estarem ocultas no interior da concha, tornaram-se o símbolo do conhecimento velado e da sabedoria esotérica. São mencionadas ao longo de milênios na mística, na religião, na arte, folclore e literatura dos mais diferentes povos.

A cosmogonia dos Ahl-i Haqq, os Fiéis da Verdade no Irã, prega que no início não havia na Existência nenhuma criatura além da Verdade Suprema, única, viva e adorável. Ela morava na pérola onde ocultava sua essência. As ondas do mar a tudo guardavam.

Poemas épicos indianos como o Ramayana e Mahabarata contém interessantes lendas sobre pérolas: “após a criação do mundo os quatro elementos honraram o Criador, cada um com um presente. O Ar ofereceu-lhe um arco-íris; o Fogo uma estrela cadente; a Terra um precioso rubi e a Água uma pérola”.

Na Índia acreditava-se que as pérolas nasciam na testa, cérebro e estômago dos elefantes (animais sagrados), também nas nuvens, conchas, peixes, serpentes, bambus e ostras. Sendo propriedade exclusiva dos deuses, as pérolas das nuvens irradiavam boa sorte. As pérolas das serpentes possuíam um halo azul e descendiam de Va’Suki, soberano das serpentes. Os mortais muito raramente viam essas pérolas: somente os de grande mérito gozavam de tal privilégio.

Na Malásia acreditava-se que elas nasciam nos coqueiros, enquanto que na China supunha-se que elas cresciam num peixe parecido com a enguia, ou no cérebro do dragão.

Lendas também falavam da pérola que crescia na cabeça do sapo. Shakespeare mencionaria essa crença milhares de anos após, em sua obra As You Like It: “Doce pode ser a adversidade da vida, que como o sapo, feio e peçonhento, na cabeça traz, todavia, uma joia cingida”.

Pequena bolinha que soube cativar tão intensamente povos de todos os cantos, todas as culturas, todos os tempos!

Especialista na arte da Simbologia, o homem explorou ao máximo esse elemento de beleza e mistério.

A pérola está inegavelmente ligada à lua, à água e à mulher. Nascida das águas, numa concha, representa o princípio Yin, a feminilidade criativa. A semelhança entre a pérola e o feto lhe confere propriedades genésicas e obstétricas. Desse triplo simbolismo (Lua – Água – Mulher) derivam suas propriedades mágicas, medicinais, ginecológicas.

Na Pérsia antiga, a pérola intacta era o símbolo da virgindade. O termo “furar a pérola da virgindade” está associado à consumação do matrimônio.

No Oriente é considerada afrodisíaca, fecundante, um talismã.

Na China e Índia é o símbolo da imortalidade, daí o fato de colocarem uma grande pérola na boca do morto, para regenerá-lo e inseri-lo num ritmo cósmico, cíclico, que, à imagem das fases da lua, pressupõe nascimento, vida, morte e renascimento. Outra ligação que se faz a esse antigo costume é o do óbolo oferecido ao barqueiro da morte Caronte, elementos da Mitologia.

Na Grécia antiga era sinônimo de amor e casamento. Símbolo também de Afrodite (Vênus) nascida da espuma do mar.

Escritos cristãos antigos retratam o Cristo como “a grande pérola que Maria carrega”.

Os celtas associaram as pérolas à força vital e usavam-nas para energizar um recipiente, conhecido como Vasilha Mãe, que mais tarde foi chamado Cálice Sagrado, fonte da imortalidade.

Simbolismo forte também é o das pérolas enfiadas em um cordão. É o rosário, o Sutratma, a cadeia dos mundos, penetrados e unidos por Atma, o Espírito Universal. Assim, o colar de pérolas simboliza a unidade cósmica do múltiplo, a integração dos elementos dissociados de um ser na unidade da pessoa, o relacionamento espiritual de universo desequilibrado, da unidade rompida.

A pérola é pura e preciosa, porque é retirada de uma água lodosa, de uma concha grosseira, e surge tão bela, tão límpida. Há uma certa aura de magia que a cerca.

A origem mítica mais comum menciona conchas fecundadas através de temporais, pelo trovão, o dragão celestial, e sendo alimentadas pela luz da lua, gerando então a pérola.

No texto paleocristão “Physiologus” encontramos um trecho belíssimo que diz: “Há uma concha no mar que leva o nome de concha purpúrea. Ela emerge do fundo do mar . . . abre sua boca e bebe o orvalho do céu e o raio do sol, da lua e das estrelas, e por intermédio dessas luzes superiores produz a pérola… ” As duas cascas da concha são comparadas ao Antigo e Novo Testamento, a pérola em seu interior é Jesus, o Salvador.

Textos antigos mencionam a presença de conchas próximas às margens do Mar Vermelho, todas com a “boca aberta”, como que à espera de algo comestível. Durante uma tempestade furiosa, o raio penetra na concha, essa se assusta e fecha suas cascas. O raio em seu interior contorna seus globos oculares transformando-os em pérolas. Agonizantes as conchas morrem, mas as pérolas resplandecem em beleza às margens do Mar Vermelho.

São muitas as histórias, lendas, crenças e superstições a respeito dessa gema orgânica, sem dúvida a mais mística de todas.

O “Hino da Alma” atribuído ao gnóstico Bardesane, datado dos primeiros séculos da era Cristã, fala de uma criança que é enviada ao Egito para encontrar uma pérola escondida no fundo de um poço protegido por um dragão. A criança é o homem, sua caminhada em busca da pérola representa as peregrinações da vida. Após comer alimentos do lugar o menino se esquece de sua missão. Uma águia traz-lhe então uma carta relembrando-o – a carta é a doutrina da salvação que vai ajudá-lo a encontrar a pérola, a iluminação, a gnose.

Numa antologia medieval de novelas (Gesta Romanorum) há um texto que menciona uma jovem possuidora de uma pérola rara (livre arbítrio). Seus cinco irmãos (os sentidos) queriam trocar a pérola pelas alegrias dos sentidos, o que ela recusou. Quando surgiu o “rei”, ela entregou-lhe a pérola e tornou-se sua esposa.

Já esteve associada às lágrimas, mas como símbolo da virtude que fortifica os espíritos vitais que nascem do coração. Há um dito muito conhecido por joalheiros da Europa oriental que diz: “As pérolas em que acreditamos nos trazem lágrimas prateadas como a lua, mas são lágrimas de alegria”.

Passam os tempos, surgem novas e modernas tecnologias, o homem redescobre suas fronteiras intelectuais e, mesmo assim, a Pérola, em toda a sua beleza e misticismo, continua a intrigar e atrair…

Publicação

Artigo originalmente publicado no site JoiaBr

Autor(a): Márcia Pompei

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