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Matéria publicada no Site: www.joiabr.com.br


MÃE ÁFRICA
Brilhando na joalheria brasileira
1ª parte


Márcia Pompei(*)




 

Há alguns meses pudemos ver importantes estilistas, de diferentes grifes da moda, seguirem em direção ao “gigante africano” com a intenção de buscar inspiração para as coleções que despontam agora nas vitrines mais elegantes.

África, um país gigante, enigmático, complexo e extremamente místico. Onde a riqueza de um enorme diamante como o Promessa do Lesoto de 603 quilates - o 15° maior da história, vendido em 2006 pela South African Diamond Corporation - compete com a pobreza de adultos e crianças que morrem de fome à vista do mundo.

Problemas sociais à parte, a verdade é que a riqueza de sua cultura é incontestável.

E já que as roupas e acessórios embarcaram nessa “viagem”, as jóias não podiam ficar para trás. A influência que chega é forte e bela. Vale a pena conhecermos um pouco mais a respeito dos adornos e jóias africanas, assim como suas crenças e superstições.

Quando falamos em África muitas imagens vêm à mente. Animais, cores fortes, calor. Mas os orixás, as mães de santo, o misticismo, não podem faltar.
Nas religiões de origem africana os sentidos convivem em harmonia com o sagrado. Movimentos, gestos, formas, cores, sabores, odores e indumentária são componentes fundamentais nos diversos rituais. Não há distanciamento entre o divino e o humano como em diversas outras religiões.

As jóias e objetos de adorno estão fortemente presentes na cultura africana.

Colares - Vários são confeccionados em metal. Com elos, tiras ou outros formatos. Eles são chamados de “guias” e mais usados entre os adeptos da umbanda. Levam também um símbolo que pode ser uma estrela, um machado, santos populares entre outros. Alguns deles são ainda adornados de contas vermelhas, pretas e brancas. São objetos de proteção para o corpo.

Histórias antigas contam que o correntão de elos de ouro usado pelas escravas, também chamado de correntão cachoeirano, era fruto de muitas noites de amor com os senhores portugueses. Conta-se que enfeitiçavam os homens para que lhes dessem suas alianças em troca dos favores sexuais. Cada elo era uma aliança portuguesa.

Fios de Contas
Conta – estrela principal das peças de adorno africanas. É a designação de tudo o que passe por um fio com o objetivo de envolver o corpo.

Os famosos “fios de contas” são muito utilizados. Seu sentido é fundamentalmente religioso. São contas enfiadas, originalmente, em palha-da-costa. Atualmente são usados os fios de náilon, cordonê ou outros.

Seu colorido é fascinante. Podem representar uma hierarquia; um rito de passagem; identificar deuses, atividade desenvolvida ou mesmo nações. Podem ser encontradas em diversos materiais, mais e menos nobres, de acordo com a situação financeira de quem o usa mas a mais famosa e conhecida é sem dúvida a miçanga. Essa conta também é usada em outros trabalhos como o tear, que apresenta desenhos coloridos muito atraentes e significativos.

O fio de contas marca um compromisso cultural e ético entre o ser humano e o divino. É canal de comunicação entre o homem e seu deus tutelar. Também chamados de “colares litúrgicos”.

O relacionamento estabelecido com o mundo “mágico” só é possível enquanto o indivíduo integra uma nação, uma tribo. Os fios de conta também se prestam a essa finalidade à medida em que associam esse indivíduo a um grupo, a um orixá.

- O fio simples e único é usado normalmente por iniciantes ou no dia-a-dia, por ser mais fácil de levar. Podem ser vistos também em pára-brisas de carros, nos pulsos, em um objeto da casa etc.
- Fios múltiplos, suas montagens e cores simbolizam deuses específicos.
- Xubetas ou Mocãs: fios de palha-da-costa ou buriti trançados com miçangas e búzios.
- Rungeve: Feito de miçangas marrons, corais e seguis (um tipo de conta).
- Diloguns: fios múltiplos. Conjunto de 7, 14 e 21. São unidos por uma firma (conta cilíndrica).
- Brajá ou Ibajá: longos fios montados de dois em dois, em pares opostos. Podem ser usados a tiracolo e cruzando o peito e as costas. É a simbologia da inter-relação do direito com esquerdo, masculino e feminino, passado e presente. Quem usa esse tipo de colar é um descendente dessa “união”.

É a cor é um dos mais importantes elementos a “identificar” um fio de contas.

Não é qualquer pessoa que pode montar o fio de contas, ele(a) precisa ter domínio sobre toda a simbologia, conhecê-la profundamente e, principalmente, ser iniciado(a) durante um período especial chamado reclusão do roncó, destinado à feitura do santo.

Após o ato da montagem dos fios eles passam por rituais próprios para que sejam sacralizados. As contas devem ser imersas numa bacia nova com água. Folhas consagradas ao santo específico são trituradas com as mãos. Em seguida as contas são lavadas com sabão da costa. As contas estão purificadas. Cabe ao dono(a) conservá-las em uma vasilha de barro quando não estiverem no corpo. De tempos em tempos é necessário purificar novamente as contas.

Além das contas, muitas vezes podem ser vistas outras peças como a figa, o oxê (machado de cume duplo), dente, peixe, moeda, búzio, patuá, ofá (arco e flecha), esporão, pomba do Divino Espírito Santo entre outros.

- Cor:
A simbologia das cores está ligada à história e mitos dos orixás assim como aos seus domínios.

Cores muito usadas são o vermelho, preto e branco. A facilidade na obtenção de pigmentos naturais nessas cores estimulou seu uso, seja em pinturas corporais, em tecidos ou mesmo nos objetos de adorno. Além disso têm forte ligação com o homem. O vermelho está relacionado ao sangue, ao fogo, conseqüentemente à luta, à força. Branco e preto são dia e noite, homem e mulher, vida e morte. O branco também pode ser visto como representação da ancestralidade e o preto como elemento germinal da terra. O segui, conta azul de forte significado africano, antigamente só era usada por reis. Acreditava-se serem excrementos do Vodum Dan Aydo Wédo.

- Formato:
Pode variar muito. As mais conhecidas são as redondas, as miçangas, que variam em tamanho. Há também as cilíndricas e elípticas além das irregulares.

- Material:
Os mais valorizados são os naturais, “verdadeiros”, no entanto a situação econômica obriga o uso de materiais alternativos e sintéticos. Eles são permitidos nos cultos pois sua principal função aí, a de simbolizar o divino, está devidamente adequado visto que as cores são rigorosamente obedecidas.
Podemos ver o uso de vidro, massas, búzios, metais, marfim, chifre, madeira, cerâmica, coral entre outros. Mesmo os materiais reciclados estão ganhando espaço no Candomblé.

Materiais nobres, como as bolas de filigranas de origem luso-muçulmanas, são patrimônio das africanas destinado a seus descendentes e amigos queridos. A impressão é de que não apenas o valor financeiro é levado em conta, mas também a crença numa “energia” que fica nas peças e que possa ser “distribuída”.

Bastante conhecidas são as contas com que são feitos os laguidibás, de chifre ou casca de coco, sempre na cor preta.

A Vida pulsa em cada pedacinho da África. Energia pura, simples, das entranhas da terra. É essa a proposta para a nova estação que chega, também nas jóias. Que tal experimentar?

 

Bibliografia

Jóias de Axé - A A Joalheria Afro-brasileira
Raul Lody - Editora Bertrand Brasil

Dicionário do Folclore Brasileiro
Luís da Câmara Cascudo - Editora Global


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(*) Márcia Pompei - Designer de jóias e professora de joalharia e especializações
no Atelier Márcia Pompei. É formada em Propaganda e Publicidade e atua no ramo desde 1990. Estudou com grandes mestres da Joalheria brasileira. Participou de exposições dentro e fora do país. Desenvolve uma linha de material didático abordando diversas áreas da Joalheria.
Mapompei@uol.com.br

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