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“Mundo
de flores e salgueiros”, karyukai, assim é
chamada a sociedade das gueixas.

Quais
mulheres de outras culturas poderiam comparar-se às gueixas*?
Segundo a escritora e pesquisadora Liza Dalby, “há semelhanças
entre elas e as kisaeng coreanas, ou as heteras da Grécia
clássica, as femmes savantes francesas e as xiaoshu
da China imperial”, mas a gueixa é muito complexa e diversa, não
se resume a uma simples comparação ou rótulo. Sem dúvida ela
é considerada pelos próprios japoneses como “mais japonesa”
do que qualquer outro grupo.
*Nota
sobre a grafia: gueixa ou gueisha, as duas formas são
consideradas corretas.
A
tradução da palavra gueixa é artista. Foi usada a princípio
para designar músicos e atores que se apresentavam em eventos.
Como atividade artística sempre foi erroneamente associada à
prostituição a gueixa também sentiu essa injustiça.
É
comum associá-la à prostituição, no entanto a diversão ao
lado de uma gueixa nem sempre resulta em sexo. Sua principal função
está em criar uma atmosfera agradável num ambiente de reunião,
de festa, um encontro que os clientes solicitam. Elas dançam,
tocam, servem bebida, conversam sobre temas variados e importantes
e acima de tudo: guardam um segredo como ninguém mais. As gueixas
não se destinam a entreter apenas homens, elas podem fazê-lo com
mulheres e mesmo crianças.
No
Japão feudal, época de escasso refinamento cultural, falta de
informação e contato com o mundo, as gueixas também eram vistas
como educadoras; essa era uma de suas muitas missões sociais.
Pais levavam seus filhos às casas de chá, acima de tudo para que
tivessem contato com o refinamento, com a cultura. O sexo viria em
segundo plano e não obrigatório.
A
gueixa foi muito divulgada através da ópera de Puccini, Madame
Butterfly, baseada em fatos reais.
Algumas
podem ter um protetor – danna – que as manterá.
A
convivência próxima entre gueixas e prostitutas fez surgir a
necessidade de se definir quem era quem, por isso, em 1779 foram
criados os kenban, cartórios destinados ao registro e
fiscalização de gueixas. Diversas normas surgiram e lhes foram
impostas como a obrigatoriedade do conhecimento das artes
musicais, regras de etiqueta, maneira de falar, dança clássica,
canto e literatura, entre outros.
A
aparência da gueixa também foi regulamentada, ela já não
poderia usar quimonos muito chamativos, a discrição seria
fundamental. As jóias de cabeça também deveriam seguir uma
norma, não mais do que 3 kanzashis (palitos decorativos
para cabelos) e apenas um pente de casco de tartaruga. O obi
da gueixa deveria ser amarrado nas costas, o amarrado na frente
seria usado pelas prostitutas, facilitando o ato de despir-se já
que o faria diversas vezes ao dia.
--->
Obi em chitão, seda chinesa, diamantes, ouro amarelo e branco. Peça
finalista no JDI 2006 - International Jewelry Design Innovation
Competition, concurso de jóias realizado em Hong Kong.
O
período de 1860 foi considerado a época de ouro para as gueixas,
que se vestiam no rigor da moda e ditavam tendências. Hoje, já
em número bastante reduzido, elas são “guardiãs” da
tradição.
Sem
dúvida a força cultural que as envolve é grandiosa, mas não se
pode negar que seus adornos são fundamentais para
“compor” a figura da gueixa. Elas têm enfeites específicos
para épocas do ano, como no verão, onde usam adornos de cabelo
leves e sutilmente brilhantes.
Seu
rosto branco é resultado da aplicação de um pó chamado haku.
Uma possível origem desse costume vem do cotidiano de mulheres
que juntavam lenha e faziam carvão, próximo ao rio que caminha
para Osaka. Para receber clientes particulares, precisavam empoar
o rosto que estava sempre manchado e escuro.

Nos
cabelos são usadas as peças de adorno mais importantes, os
pentes, que normalmente são de casco de tartaruga, alfinetes que
podem ser de coral, opalas ou outro elemento, os kanzashis (palito/jóia)
e adornos metálicos que se movimentam e brilham ao contato com a
luz. Podem ser vistas também flores em sua cabeça, como a
ameixeira.

Curiosos
enfeites podem ser vistos também na cabeça, como arroz com casca
e a figura de uma pomba de massa, sem olhos. Essa pomba tem um
significado especial. Um homem pode pedir para desenhar os olhos
na pomba, esse é um sinal de que a deseja como amante naquela
noite.
A
roupa é composta pelo quimono de cauda, sempre estampado, bordado
e colorido porém discreto, e o obi na cintura. Ela
costuma demorar horas para se arrumar e sempre com a ajuda de alguém.
A pose de segurar a barra do quimono com a mão esquerda é típico
de uma gueixa. Os tamancos costumam ser altos (12 a 20cm) e a área
que tocam o chão corresponde à metade do comprimento dos pés,
mas nem isso abala seus movimentos suaves e delicados.
Apesar
da aparência frágil e delicada, a gueixa é antes de tudo uma
mulher forte e determinada. Ao longo de décadas, vem enfrentando
as mais variadas diversidades, porém sem perder o apreço pela
tradição, pela cultura de seu país. Sem dúvida ela foi
diretamente responsável por diversas mudanças no Japão, mas
isso é tema para muitas matérias... Ficamos por aqui.
Bibliografia
Gueixa
Liza Dalby - Editora Objetiva
www.culturajaponesa.com.br
autora: Cristiane A. Sato
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